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terça-feira, 7 de outubro de 2014

primeiro golpe.

-Olá. Estás por aqui também? - perguntas-te naquela festa, naquela noite. Já nem me recordava bem de ti. E devia de ter ficado assim. 
Dois dedos de conversa, foi o que aconteceu. Eu estava de passagem, e tu algo me dizia que também não ias ficar por ali. Mas olhá-mo-nos. Muitas vezes. Durante toda a noite. Lembro-me de me despedir, e tu me dares um dos melhores sorrisos até hoje. Fui-me, sem pensar quando nos reencontraríamos. Afinal, ainda nem tinha percebido quem realmente eras tu.
*
-Sabes anedotas? conta-me uma. - Pedi-te eu naquela noite no jardim. E tu contaste-te uma, duas, as que sabias, e as que tentaste inventar para me fazer rir. Achei-te tanta piada naquele momento. E no meio daquela história já partilhávamos pipocas e histórias absurdas sobre casa um de nós.
- Os teus olhos matam-me! Não me olhes!, pedias envergonhado. eu ria-me. E mais valia ter-te "morto" ali mesmo, naquele instante. 
A forma como me tocavas, falavas, prendia-me todo e qualquer movimento. Não conseguia fugir. E tu igual. Estávamos desarmados. Os dois. Para nosso mal. Sozinhos, sem querer saber mais da musica que passava, ou de quem estava a brindar pelo quê, lá estávamos. Eu, tu e as pipocas.
-Acho que devíamos jantar um dia destes. atiras-te tu para o ar. -Sim, pode ser em minha casa. -Que tal terça-feira? - Parece-me bem. E isto é a técnica que eu usei para me dar um golpe a mim mesma. Foi o primeiro, aquele meio indolor. Que só dói quando se mexe no objecto que se espetou ou quando se tira. Agora era esperar pelo momento em que ias torcer a faca em mim. 
Levaste-me a casa. - Até terça. -Até terça. Sorriste e foste embora. E eu, eu subi. sem notar ainda que a faca já estava espetada.
E foi uma questão de dias até que a rodasses.
Jantamos. Conversamos como se nos conhecêssemos desde sempre. Toda a química era estranha. Odiei as pipocas que fizeste, e tu percebeste por mais que eu dissesse que estavam óptimas. O filme vá lá, mas não era ele que tinha a minha atenção, nem a tua. E num toque suave, depois de uma gargalhada tímida, rodaste a faca que me tinha sido espetada. Beija-mo-nos. O golpe estava dado. 

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